O mar quando quebra na praia é bonito

O mar quando quebra na praia é bonito

Alberto Miguel e Thereza Christina

Havíamos começado a namorar há pouco tempo e vivíamos em um lugar do Rio onde não tinha praia (talvez um dia com o descongelamento das calotas polares, um dia haverá). Mas falando sério, nossa realidade era viver numa outra cidade que não preenchia os requisitos das fantasias dos que não conhecem o Rio, qual seja: todo carioca tem uma praia na esquina. Nos não.

Viajar para fora do Rio em um lugar de praia, parecia um pouco com ir à praia dentro da cidade. Mas era melhor, mais tranquilo, sem o fantasma da violência, ou a violência propriamente dita.

Íamos para a cidade onde começou nosso namoro, Muriqui, não muito famosa como Cabo Frio, Araruama, Angra dos Reis, Búzios e outras, mas bastante agradável, justamente por não ser tão frequentada.

Chegamos tarde a casa onde nos hospedaríamos, e ela já estava cheia de pessoas que não conhecíamos. Portanto tínhamos onde comer, onde tomar banho, menos onde dormir.

A praia, lá sim. Deserta, areia branca, fofa como um colchão, uma brisa gostosa melhor que a de um ventilador e o barulho do mar para nos fazer dormir. A paisagem perfeita. Nós vimos esta cena em uma novela e, como disse o compositor baiano, o mar quando quebrasse na praia deveria ser bonito.

Levamos nossas coisas então para lá e tivemos cuidado de não ficar muito perto da água, pois tínhamos medo da maré subir. O mar de noite é um mar invisível, parece que com a escuridão aumenta a sensação do som do mar. Não mais forte, intenso, mas torna-se uma presença impressionante, o mar vira um som de mar, enorme. As ondas não batiam fortes, mas sim continuas como uma música cadenciada. Dormir com esse som foi maravilhoso.

Gostamos de pensar que adormecemos quase juntos. Cada um de nos dois tem sua dose de romantismo. Não muito, mas tem. Não sei se o fim desta história nos fez menos românticos e mais realistas.

Acordamos com a luz. Não havia sol. Um céu branco. Feito de uma nuvem só. Ao longe o mar e o toque de realidade e anti-romantismo dado por horríveis urubus. Uma dezena mais ou menos, bicavam a areia na beirada da água, quase sem ondas de um mar parado, estático.

É, o mar quando quebrou na praia não foi tão bonito assim, mas talvez desde aquele dia em diante em tudo tentamos achar beleza, mesmo onde aparentemente não havia, eu e ela, nos.

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