Água com sal

Helen Coppi

 

Sempre que o coração seca, a mente não consegue mais sentir paz em nada, o corpo pede socorro e abrigo, sei que tudo só sossegará com o um pouco de areia nos pés e cheiro de mar.

 

Não me lembro quando vi o mar pela primeira vez, mas minha mãe tem bem vívida a lembrança de uma onda me levando, eu rapidamente afundando, dos gritos de todos na areia, da minha madrinha me resgatando pelas curtas maria-chiquinhas que meu cabelo ostentava quando tinha pouco mais de um ano de idade. Mesmo com todos apavorados, eu estava bem, calma, como se absolutamente nada tivesse acontecido.

 

O que para muitos seria causa de traumas profundos só me aproximou do que, eu achava na infância, seria meu real habitat.

 

Quando criança as idas a praia eram esperadas com ansiedade e celebradas com músicas durante toda a viagem. Amava as longas caminhadas em busca das conchas perfeitas, os mergulhos no mar imaginanando aventuras malucas com sereias e seres marinhos e depois tudo, lanchar e deitar no banco de trás da variant curtindo a sensação das ondas ainda batendo no corpo cansado.

 

Foi sentindo o cheiro do mar que vivi o primeiro beijo, o primeiro amor. A beira mar minhas amigas e eu cantamos músicas a plenos pulmões durante as madrugadas, tecendo lembranças que nos acompanham até hoje. E em uma tarde fria e chuvosa, o mar foi o único que me acariciou o rosto com seu vento e chorou comigo a dor da desilusão.

 

Quando encontrei o companheiro de vida, o mar estava lá: guardando os nomes escritos na areia, ouvindo os planos, celebrando a união.

 

Curioso perceber que sempre que meu coração apertava, o estômago se enchia de borboletas, e a cabeça não queria funcionar direito, o mar estava lá comigo, sentado me olhando de frente, sussurando segredos e conselhos com a brisa, puxando minha orelha me sacudindo com ondas bravias ou festejando com dias de sol.

 

Nossa relação está distante, e talvez a rotina da vida adulta seja a culpada. Mas sendo o sal um exímio conservante, sei que nossa ligação é eterna. Porque o que me acalma não é água com açúcar, mas sim, água salgada.

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2 comentários em “Água com sal

  1. Republicou isso em e comentado:
    Uma delícia participar de oficinas.
    Essa é uma das crônicas que produzi durante as aulas. Lá no blog “Oficina Coisas da Vida” tem mais textos incríveis dos parceiros da turma.
    Bora lá!

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    1. Que ótimo que está gostando da oficina, Helen! Escrever significa sentar e reescrever várias vezes. Não desistir e criar o hábito de procurar seus temas ao seu redor. A bola está com vcs!

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