MAR

Mariana Helena

 

Década  de 60.

Tinha eu, 9 anos. Em viagem programada, pela família  do meu cunhado  e minha irmã,  fomos  para  a praia de Caraguatatuba.

Em caminhão  Chevrolet anos 50, coberto com encerado à  meia  carroceria, saímos de madrugada de Santa Branca.

A atenção  redobrada, pois a pista da rodovia Presidente  Dutra, na época  era em mão  única.

Avistava – se ao longe, fracas luzinhas a brilhar na

imensa  neblina das cidadezinhas  do Vale do Paraíba.

Descendo  a Serra,  com suas curvas fechadas, eu “encafifada” a questionar: – porque a montanha maior, ora se vê  do lado

direito, ora do lado esquerdo?.

Chegamos. Ocupando uma

grande edícula. Lanche  preparado: pão  com mortadela,  limonada, fomos. Rumo a  praia.

O mar!. Meu deslumbramento!

Enorme!  Vastidão  imensa a perder de vista, unindo-se ao azul céu!

E os raios  de sol, prateando a superfície do mar, salpicando as ondas, refletindo  e brilhando em nossos olhos.

O susto! A sensação  única  da água  gelada  nos pés!  O receio em ir mais além…

Entrando no mar com meu short  azul turquesa  e blusinha  sem mangas, estampadinhas. Pois, tímida, não  usei o maiô de helanca  vermelho (tecido de lycra, fibra sintética elástica resistente flexível adaptável aos movimentos do corpo, moda da década de 60) emprestado  da filha da professora, rica e bondosa.

E a brincadeira de alguém  do grupo, dizendo em sotaque  “arrastado” – caipira!  Eu, indiferente, com cara de paisagem, queria mais era me divertir. Como toda criança,  fazer “estripulias” brincando no mar.

Me divertia também  vendo o patriarca do grupo (pai da cunhada da minha irmã, fazendeiro, antigo Coronel) boiando, com o chapéu  na cara. E o outro, boiando também, com o cigarro apagado no canto  da boca.

Hoje adulta, viajo  ao revés  da história. Minha visão  de mar, vai d’além  mar: invasão, “posse”, corsários, europeus, aprisionamento indígena, Navio negreiro, tráfico no cais. Nos porões dos navios, tumbas. Marinheiros a chibatadas. Ilhas de areia amarelo-dourado, de céu azul.

Infinito mar: prisões: marinheiros, escritores, jornalistas.

Jovens idealistas, jogados de helicópteros, desaparecidos em alto-mar.

Todos que ousassem ser contrários  ao “sistema”…

Caymi cantava lindamente  sobre o mar. Todavia, clamava  por seus companheiros pescadores. A jangada que, diante  da tempestade, não  retornou do mar.

Todavia, amo o mar. Não  troco nossas paisagens tropicais, coqueirais por pinos americanos e canadenses. Neves europeias  e cordilheiras andinas.

Vou no balanço  das ondas. Sigo o universo marinho. Procuro palavras, assim como os piratas descuidados que deixaram cair  no fundo do mar,  um tesouro  de moedas e pérolas  preciosas. Em altos voos, como uma gaivota, mergulho a procura das letras: infinitas, indefiníveis.

Busco palavras para definir o misterioso  mar.

 

Mariana Helena

 

 

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