MAR DE ARREGALAR

Carla Maria dos Santos Ferraz Orrú

 

 

Mar tem sabor de meninice, de mundo que se abre, de uma grandiosidade inexplicável, de coisa boa de olhar.

Não me lembro, exatamente, de quando conheci o mar, mas foi na infância, em família, com irmãos, pai e mãe. Passeio de barco pelo mar aberto, com o vento batendo na cara e os cabelos entrando nos olhos por causa do vento. Agarrada à mão da mãe, mão apertando a outra, a cada balanço mais brusco do barquinho. Não havia colete salva-vidas, proteções de nenhuma espécie, não era este mundinho plástico-bolha de hoje. Era tudo na raça, na base do “engole o choro”.

Esta experiência foi repetida com a família que construí, com marido, filha e filhos, e o mesmo grau de arrebatamento dos pequenos, diante do mar sem medidas. Guardo uma foto do filho caçula, aos cinco anos, sentadinho num pequeno muro, olhando pro marzão! Olhar absorto, contemplativo, mirando o mar.

Admiração, olhos arregalados, gritinhos de êxtase diante da visão do bichão, bem como diante da força das ondas que pulávamos, quase perdendo o equilíbrio. Aqui as histórias se confundem, as fotos dos álbuns antigos se superpõem. Ora sou eu, ao sete anos, pulando uma onda, ora minha filha, aos oito, saltando a danada. A infinitude diante dos olhos, silenciando as palavras, que nesta hora faltam e não dão conta de narrar o sentimento de surpresa.

Olhar assim, tal como o de olhar o mar, presenciei quando minha filha, aos quinze anos, viajando comigo para Munique, na Alemanha, viu aquela cidade pela primeira vez. Foi quando estávamos saindo do túnel do metrô, um centro antigo, com a arquitetura bem diversa da que seus olhinhos jovens e brasileiros conheciam. Mais uma vez, o olhar percorrendo tudo ao mesmo tempo, querendo gravar nas retinas aquela profusão de belezas mil, belezas que ela não tinha com o que comparar no seu repertório de sul-americana, da nova América, de um país tão jovem.

Olhar, mar, mistérios que não entendemos, só sentimos. Algo diferente pulsa dentro de nós, a vida se engrandece, as perspectivas se alargam, o mundinho cotidiano é colocado em perspectiva, tudo parece possível se aquele mar existe.

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