O Mar e o Tempo

por Ricardo Miguel

 

Eu não gosto de ir à praia. Pronto, falei. Peço desculpas se ofendi alguém. É uma afirmação que parece despertar o pior das pessoas, tenho até medo de dizer em voz alta. Quando digo, acabo recebendo olhares de reprovação como se eu dissesse que estou me filiando ao partido nazista ou vou votar no Bolsonaro – que no fim é quase a mesma coisa. Não olhem para mim como se fosse o fim do mundo, eu só não vejo muita graça em tomar banho de mar ou ficar fritando no sol. O mar é realmente impressionante, uma bela vista, mas infelizmente é só isso pra mim, nada mais. Não vou descer para o litoral só para ver o mar, acho que pouco valeriam os gastos e esforços.

Entre minha infância e adolescência, já estive na praia algumas vezes, talvez quatro ou cinco. Na primeira, fui com minha mãe, primos e tios. Eles alugaram uma casa de veraneio e ficamos o fim de semana inteiro em Caraguatatuba. Não lembro muito bem das minhas primeiras impressões do mar, acho que tive um pouco de medo, demorei para entrar na água. Contudo, me recordo muito bem das boas memorias que passei em família. Lembro das comidas, entre raspadinhas e hamburguês, das conversas, entre muitas risadas e puxões de orelha, e principalmente do parque que fomos em uma noite e eu chorei por não terem deixado eu ir no trem fantasma. Foram bons momentos em família, daqueles que você só vive quando é criança e o mundo ainda é muito novo e você está rodeado de novas impressões e sensações.

As outras viagens ao litoral não foram tão proveitosas quanto aquela primeira. Não tenho grandes recordações desses dias. Na última vez, aos quatorze anos de idade, eu já demostrava minha legítima antipatia pelo passeio, fiquei mais tempo na areia comendo petiscos, desejando voltar logo para casa, do que dentro da água tomando banho de mar ou aproveitando para tomar sol no calor escaldante. Por conta das chuvas de verão, passamos alguns dias enfurnados na casa que havíamos alugado e eu gostava mais quando chovia, pois podia tirar proveito para conversar e assistir televisão com meus primos e tios.

Para mim, acho que ir para praia sempre foi mais sobre estar curtindo um pouco das companhias familiares e o local não tinha tanta importância, poderia ser em qualquer outro lugar – até seria melhor que fosse. Acho que o mar me lembra família, mas pouco realmente do mar. Os tempos são outros, já não tenho mais tanto contato com tios, tias, primos e primas, além de não ver o mar faz muito tempo. Não sinto tanta falta do mar, mas bastante das relações familiares de outrora. Mas é isso, o tempo passa, as relações se dissipam, e eu ainda não gosto de ir à praia. Pronto, falei de novo.

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