OMAR

Yago Dias

Há poucos dias esbarrei na minha infância. Vieram lembranças da minha já tão distante idade menor. De todas essas memórias, a que saltou a meu encontro, me abraçou, me envolveu, foi a de um velho amigo: o mar.

Lembrei-me da nossa velha, e tão real, relação. Não éramos apenas um menino e um infinito de água. Brincávamos, nos divertíamos. Lembro ainda de que nossa amizade era tão próxima que ele era chamado de Omar. Não fui eu quem inventou, juro! Ele permitiu numa das brincadeiras que eu o chamasse assim. Senti ainda mais saudades dessa tão verdadeira amizade.

Desde muito cedo, eu era um bebê ainda, já ia muito à praia com meus pais. Foi ali que ele me conheceu. O mar já me embalava em sua maré desde essa época. Achava que tinha sido já nesse primeiro contato que ele me escolherá como amigo, como irmão mais novo. Por conta desse constante contato com o mar, eu sempre me senti fascinado pela maneira com que as espumas das ondas nos abraçam; pelo jeito que as ondas estouram no fim do dia te dando adeus e torcendo pra que você volte no dia seguinte. Ele torce por nós. Pra mim, Omar sempre teve os nossos sentimentos. Ele um pouco humano ou nós um pouco mar? Confesso que até hoje não tenho certeza.

Eu passava o meu dia todo ali mergulhado, entretido num papo interminável. Eu literalmente mergulhava e era ali que conversávamos. Eu pedia sempre “Omar, manda aquela onda maneira. Vamos juntos surfar sobre ela”. A onda vinha e ele me carregava por metros e eu me sentia o mais realizado. Nesses poucos segundos na crista daqueles pequeninos jacarezinhos éramos somente eu e ele. Dominávamos o mundo.

Alguns muitos amigos meus tinham uma intima relação com seus cães e gatos; mas eu não, eu tinha ele. Ele me fazia ser especial e eu amava isso. O menino era melhor amigo do mar, e esse menino era eu, só eu. Eu era o mais especial de todos os seres do mundo e ele o sempre tão grande, tão lindo, tão misterioso, tão simplesmente mar.

Recordei tudo isso e percebi que me sinto um pouco como Rubem Braga. Me tornei desleixado em relação a nossa amizade devido à correria da cidade, da vida adulta. Passaram-se dois dias desde que naveguei por esse oceano de lembranças. Agora me encontro de frente para o mar. Ainda meio tímido, mas é normal essa “acanhação” quando se passa anos sem encontrar um amigo. Mas sei que ele não guarda rancor. Esse mar também é como o mar de Braga, sem ressentimentos dos filhos que crescem e não tornam a casa. Ele espera ansioso para lembrar-me de que eu ainda carrego o menino, o melhor amigo do mar dentro de mim. Lembrar-me de que eu ainda sou especial.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s