Perdidos

Renato da Nova Favarin

Mar, nas minhas memórias superficiais, lembra Alceu. Ou seria minha atual forte admiração nas suas canções que lembra o Mar?

De qualquer maneira, todas minhas memórias sobre o mar são muito agradáveis. Mesmo sendo aquela que, indo mais a fundo no baú das memórias, consigo recordar. Naquele dia que me perdi.

As sombras das árvores quase já haviam dado sua meia-volta diária quando decidimos caminhar. E um tempo depois, eu e meu amigo, no dia, já noite, do meu aniversário de 17 anos, estávamos desorientados, sem saber se o caminho para a casa era ao norte ou ao sul. Só sabíamos se era ao leste ou ao oeste por eliminação, pois em um deles estava o mar.

Horas antes, ao avisar pai-mãe-tia-tio que estavam sob o guarda-sol, que iríamos partir para uma caminhada com a água nos pés, ouvimos – em coro – a ressalva do ponto de referência. Tal ponto de referência estava na divisa areia-asfalto e era composto por três coqueiros. Olhei para trás e lá estavam eles, dois grandes e o outro menos vistoso, com muitas folhas secas.

Importante contextualizar que minha noção espacial nunca fora das melhores e naquela época ainda não existia calçadão beira-mar por ali. A rua asfaltada iniciava-se justamente no final do banco de areia.

Avistamos um grupo de pescadores que retiravam apenas peixes grandes da rede, enquanto estes se debatiam enroscados nas linhas e sobre a areia. Os peixes pequenos estavam sendo completamente ignorados, até que algumas pessoas passaram a pegá-los e devolvê-los ao mar. Sem combinarmos entre nós previamente, quase como instinto, agachamos e passamos a fazer o mesmo.

O processo ficou marcado em minhas lembranças como uma visão de encarar um peixe vivo,em aparente convulsão por falta de oxigênio marinho, deitado sobre as palmas das mãos, onde só se via apenas um de seus olhos e este sempre com aspecto assustado, olhando para o alto, pensando que seria seu último pôr do sol. Em seguida, após mergulhado na água refrescante, o peixe quase sem acreditar, ainda permanecia deitado por cerca de um segundo, até se dar conta que podia nadar; que finalmente, depois de muito tentar na areia molhada, aquele impulso na cauda resultou em empuxo; a sensação de liberdade era total e já se podia nadar para casa novamente.

A lembrança que acabei de descrever foi o ápice da alegria na caminhada. Corações estavam em puro êxtase. A partir de então, o caminho rumo à forte angústia havia começado. Era como se agora nós fôssemos os peixes pequenos e recém pescados por engano. E a ansiedade bateu forte quando procurávamos, mas não achávamos, as boas mãos salvadoras.

Pouco tempo antes do pico do desconforto mental, somente sob o último filete laranja-escuro no céue voltando rumo aos três coqueiros, foi que nos demos conta que o tal ponto de referência era estilo azulejo português: se repetia de tempos em tempos e harmonizava com o ambiente.

Na crença de já termos passado aqueles ditos três coqueiros, demos meia volta. Todos os três coqueiros que encontrávamos pelo caminho estavam sempre muito escuros; não adiantara em nada ter notado que um deles estava mais seco que os demais.

Uma hora depois avistamos sirenes de carro de polícia ao longe. Mais uma hora depois, avistamos luz de uma lanterna na praia. Era meu primo com um amigo. Haviam nos encontrado. Nos avisaram que meu pai e meu tio haviam falado com policiais que faziam patrulha pela praia, enquanto minha tia, na casa, acudia minha mãe que não sabia o que fazer, o que pensar e para onde andar. Durante aqueles momentos – infinitos para ela – ficou presa, imóvel e com respiração aflita, talvez fisicamente lembrando aqueles peixes menores na areia.

Com o séquito já próximo ao destino, na mesma rua da casa de praia, pude observar a vizinhança fora de suas residências, observando a tão esperada chegada. Também pude ouvir uma mulher dizer aos filhos pequenos, enquanto estes estavam agarrados nas suas pernas: “é sim filho, eles são os meninos que estavam desaparecidos”. Eu já sabia o quanto minha mãe era preocupada com a possibilidade de ter um filho perdido, ainda mais perto do mar, e conseguia imaginar sua angústia maior que a minha (e que beirara o insuportável).Momentos depois, então, a eliminação da mais pura sensação de desespero que tanto a incomodou. E assim como o peixe e sua reentrada na água, houve um pequeno atraso para disparar o próximo pensamento e ação, mesmo com a nossa presença física. Talvez tenha sido apenas após o abraço que a respiração se tranquilizou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s