Azul

Edilene Castro

 

Aos dezoito anos parti dessa minha cidade interiorana com destino ao Rio de Janeiro. Parti com o coração inquieto de quem sabia que as mudanças seriam, talvez, mais difíceis de se suportar do que aquele corpo e mente de menina poderiam aguentar, porém, precisava se provar até o limite, desbravar através dos próprios pés novas terras. A capital praiana foi escolhida quase que ao acaso, unicamente por abrigar o almejado ensino superior que seria cursado pelos próximos quatro anos, de modo que a cidade e todo seu entorno eram apenas o segundo plano daquilo que era o objetivo maior da minha vida: uma futura gastrônoma.

Enquanto tentava me acostumar às mudanças, lancei-me ligeira pelas ruas desconhecidas e tentei – em vão – decorar os nomes dos bairros e das ruas e os tantos números de ônibus que me buscavam e me levavam até as minhas descobertas pelos dias e pelas noites cariocas. Joguei-me direto no asfalto. Escorri em rios junto com a chuva que caia torrencial por minha cabeça. Tornei-me marcada pelo sol e pelos dias que me faziam desenhos na pele, como quando se passa horas sob o sol com areia grudada sobre si e as queimaduras possuem o formato dos pequenos grãos que grudaram.

Mais do que a descoberta de uma vida de liberdade a ser dosada e as infindáveis possibilidades de caminhos a serem percorridos a pé, de transporte particular ou coletivo, o que preenchia forte o peito, era a solidão. Estar sozinha em meio ao caos e as provações cotidianas de quem vive em uma cidade tão turística só fazia da solidão que cada um carrega em si, um buraco muito maior e mais fundo. Eu passava tardes trepidando pela borda desse buraco tentando não me jogar ou não me permitindo cair.

Durante os desencontros e os encontros que oscilavam, dançando, quase em círculos pelo âmago, me permiti conhecer a maior beleza que meus olhos puderam alcançar e meus dedos ousaram tocar: caminhava horas pela areia da praia e percorria a imensidão azul esverdeada não só com meus olhos, mas com todo o meu interior. Toda e qualquer parte de mim ansiava pelo momento de acalmar minha ansiedade nas águas de Iemanjá. O mar que contornava o Rio era o meu conforto para a solidão e para as angustias que nunca consegui compreender ou curar.

Cativou-me de uma maneira tão surpreendente que ouso dizer que me apaixonei. Amei perdidamente aquelas águas escurecidas e aquelas espumas todas que muitas vezes vinham batendo forte junto com o vento e o barulho das ondas. Tornei-me azul e respirei do azul que brotava de todos os lados, por todos os ângulos. Por meus ouvidos deixava entrar toda e qualquer essência daquela calmaria que rebentava salgada. Forte. Que me puxava. E, por vez, quase me deixei puxar por completo. Até mesmo quando me vi em pânico perdendo completamente o ar e a vida, pensei o quão belo seria deixar esse plano cercada pelo azul que já há tanto tempo havia me preenchido por dentro.

Meus pés foram tímidos ao tentar tocar a água gelada e, receosos, não correram. Ficaram parados esperando que a água os cercasse e me deixasse imersa em seu azul. Mas nada aconteceu. A água mal tocou a ponta dos dedos e tão breve como veio, se foi. Compreendi naquele instante que toda e qualquer vontade que eu tivesse de habitar os espaços ao meu redor e tudo que eu fosse almejar, teria de correr para alcançar. Que nem fiz com meus pés e com aquele azul. Dei meia dúzia de passos e senti a água fria, tocada pela noite de mil estrelas espumando em mim. Finquei meus pés nas areias e nas conchas e nos arredores daquela cidade que eu considerava o reflexo do meu caos interior. Deixei o mar me amar em silêncio e em troca lhe jurei amor eterno, etéreo e impossível de ser substituído ou alcançado.

É sensação de leveza que faz parecer que flutua. Encontro de si com a imagem de Deus. Coração que bate descompassado e entregue, completamente envolto na sinestesia do existir que pode vir no som de uma risada ou num muito obrigado silencioso, dito pelo olhar. Bolhas de ar, translúcidas, estourando no ar. Perda completa da dimensão soberba do homem perante a imensidão daquilo que não se pode caber em garrafas d’água. Areia cheia de pegadas de gente que sente pelos poros, que escorre em suores e que sangra, porque vive. Vida em forma de sentimento do mundo. Azul que junta céu e terra e transforma o mar em amor líquido, completamente entregue à espera de quem se deixe envolver. Porque se jogar ao mar é o mesmo que aprender a beijar pedaços de si de olhos fechados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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