NAMORAR HOJE

CARLA MARIA DOS SANTOS FERRAZ ORRÚ

 

Já estou tão acostumadinha ao meu namorado que me custa falar dos namoros contemporâneos, pois o meu já ganhou ares de eternidade, dado que data de 1985, um tempo sem internet em casa, de troca de cartas, de músicas dedicadas na rádio local, de serenatas e de flores roubadas e colocadas na janela.

Em tempos de encontros sugeridos pelo Tinder, ama-se seguindo a sugestão de um aplicativo para celular. Pessoas se encontram, segundo um sistema que parece combinar os interesses comuns a ambos na esperança de conseguirem um Match.

O tempo do flerte se foi? Ninguém paquera mais? Saudades do tempo em que não se combinava ninguém com ninguém, em que um olhar 43 rendia uma semana de devaneios. A piscadinha marota, o bilhetinho enviado através da melhor amiga, e aquele truque de perguntar as horas ao garoto desejado, só pra ter a desculpa de falar com ele? Hoje todo mundo tem celular e não se pergunta mais que horas são.

A mim, ainda perguntam as horas. Hoje mesmo, uma senhora que tinha consulta marcada num médico, indagou-me sobre que horas eram. Pois é, ainda uso relógio no pulso.

Namora-se, hoje, quem o aplicativo indicar. Deve ser um pouco esquisito, uma aproximação a alguém que não sabemos de onde veio e para onde vai. Cresci em cidade pequena, e quando comentávamos nosso interesse por alguém, nossas tias já forneciam a “ficha” completa do cidadão: filho de quem, parente de quem…

Ninguém ficava. Não havia isso de beijar dez numa noite. Rolava todo um processo de conquista, ganhando terreno para, enfim, ganhar aquele beijo… Ah, aquele beijo…

Quando eu e meu namorido completamos nossas Bodas de Prata, resolvemos que daquele momento em diante, iríamos “ficar”. Já estamos ficando há quase 5 anos. Estou ficando com o avô do meu neto! Não sei se será para a vida toda, o que vale é que já é por toda a vida.

A felicidade dos casais estampada no Facebook resiste ao exercício de amar, recuar, sentir vontade de esganar, ceder, se surpreender, viver, da maratona exigente do estar junto?

Ontem, hoje e sempre o que vale mesmo é buscar ser feliz. Se der para fazer mais gente feliz junto, tanto melhor.

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